A consciência pró-vida no Japão

O Juventude Pela Vida traz uma notícia muito boa. Uma grande amigo, Alberto Hikaru Shintani, brasileiro e residente no Japão, se ofereceu para colaborar e ser nosso correspondente em terras orientais. A partir de hoje, publicaremos seus textos, que tratarão sobre a defesa da Vida no Japão, com os olhos críticos de um grande mestre. Segue abaixo seu primeiro texto.

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Por Alberto Hikaru Shintani – Um dos grandes argumentos usados pelas instituições abortistas nos países ocidentais é a suposta defesa da laicidade do Estado perante o “poderoso lobby” promovido pela Igreja Católica (vide por exemplo a apresentação do grupo Catholics for Choice: “The Catholic hierarchy’s powerful lobby plays a huge role in influencing public policy and affects everyone -Catholic or not- by limiting the availability of reproductive healthcare services worldwide”, em: http://www.catholicsforchoice.org). Pois bem, se de fato a Igreja Católica é a grande “culpada” pela consciência pró-vida no mundo, é de se esperar que nos países de pouca tradição cristã, onde a Igreja Católica tem igualmente pouca (ou nenhuma) influência na formação da opinião pública, essa consciência pró-vida seja proporcionalmente menor (ou inexistente).

Neste artigo vou tratar de um país diametralmente oposto ao Brasil, a começar pela posição geográfica: o Japão. Se há um país que não se pode dizer católico, acho que o Japão -com seus 0,35% de fiéis- é um deles. E que conste que ao contrário de alguns países do Extremo Oriente de minoria católica, como o Vietnã ou a Coréia do Sul, tanto o número absoluto como a porcentagem de católicos japoneses diminui a cada ano. O materialismo prático, a falta de consciência religiosa e a crença no sobrenatural aumentam num ritmo ainda mais acelerado. Num país como este, onde a Igreja Católica tem tão pouco espaço na vida pública, como é visto o aborto?

Comecemos pela legislação referente ao aborto. Segundo o artigo 29 do Código Penal japonês o aborto é crime e dá cadeia. E apesar de o aborto existir no Japão há muitos séculos, já em 1647 foi criada a primeira lei que proibia operações que visassem o aborto. Em 1880, o primeiro código penal japonês declarava que o aborto era crime, e a sua revisão em 1907 apenas tornou mais severa a punição para quem o praticasse. No entanto, na década de 1920 começaram a surgir movimentos pelo controle da natalidade, fortalecidos pelas ideias eugênicas da americana Margaret Sanger (de fato ela chegou a visitar o Japão 6 vezes para promover sua campanha com Shizue Kato, uma das primeiras mulheres a atuar na política japonesa e membro do Partido Socialista japonês). Mas foi em 1948 que o aborto ganhou proteção legal, ao ser amparado pela “Lei de Proteção Eugênica” (sim, este é o nome da lei…). É preciso lembrar que a promulgação dessa lei ocorreu justamente no período em que o Japão estava dominado pelas Forças Aliadas –leia-se EUA– de 1945 a 1952, logo após o fim da II Guerra. Essas leis faziam parte do programa de reformas que visavam a “democratização do Japão”, para usar a expressão da época. Posteriormente essa lei foi levemente modificada e atualmente se chama “Lei de Proteção Materna”, que prevê o aborto no caso de gravidez que ponha em risco a saúde da mãe, que seja consequência de estupro, ou em qualquer caso em que “razões sócio-econômicas” o justifiquem. Na prática qualquer aborto pode entrar na última categoria, e é por isso que ainda hoje há mais de 200 mil abortos por ano (ou 0,68 casos/100 mulheres). Esse é o quadro do aborto gerado pela legislação do pós-Guerra (segundo um relatório da ONU, o pico de abortos no Japão ocorreu em 1955, com 1.170.000 abortos, contra 1.731.000 nascimentos).

Bom, isso é o que a legislação made in USA diz. Mas como o aborto é visto pela sociedade japonesa em geral? Uma mostra de como grande parte da sociedade continua sendo contra o aborto, apesar da legislação vigente (para não dizer imposta…), é que a pílula só foi aprovada no Japão de maneira definitiva e para uso geral da população em 1999, sendo o último país-membro da ONU a aprová-la. Ainda hoje a pílula é muito pouco usada no Japão, se comparado aos seus companheiros de G7. (Abro um pequeno parênteses para um testemunho pessoal: nunca vi aqui no Japão nenhuma clínica abortiva, ou mesmo clínica ginecológica que ostente um cartaz onde diga que se pratica abortos). Isso não significa que não se pratique o aborto, mas simplesmente que o aborto continua sendo um tabu, um desfile do rei nu, onde muitos se sentem

incomodados, apesar da facilidade de realizá-lo, e é por isso que tudo acontece às escuras. De fato, uma das expressões usadas para se referir ao aborto é “enterrar diretamente do escuro à escuridão”: é uma frase de duplo sentido que significa por um lado que o aborto enterra o bebê transferindo-o do escuro do útero ao escuro da tumba sem dá-lo “à luz” (literalmente), e por outro que o aborto é sempre praticado de maneira escondida, apesar do amparo legal. Neste artigo vou comentar 3 costumes gerados pela cultura do aborto, que em certo sentido refletem o posicionamento da sociedade com relação ao aborto, independente da legislação vigente.

O que me mais me chama a atenção é o costume dos mizuko (vide foto abaixo). Mizuko significa literalmente “crianças da água”, mas uma das explicações para a origem etimológica dessa palavra é que usando outros ideogramas mas mantendo a mesma leitura, essa palavra pode significar “crianças não-vistas” (porque não chegaram a nascer). Muitas mulheres que praticaram abortos põe estatuetas em templos budistas para representar cada um dos filhos abortados, como uma maneira de pedir perdão a eles e tentar reparar o mal que fizeram, e há muitos templos dedicados a esses mizuko com centenas ou até milhares de estatuetas.

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Como é óbvio, nenhuma mulher teria o trabalho de erigir uma estátua de pedra (com suas roupinhas, nomes próprios, flores e cata-ventos) se estivesse 100% certa tanto da inocência do seu ato, como da ausência de uma vida real em seu útero.

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Há também um outro costume muito interessante, que são os kokeshi. Kokeshi são bonecos de madeira, em geral compostos de um cilindro com uma bola no topo; o cabelo, cara e roupa são pintados sobre a madeira (vide foto abaixo). É um objeto de decoração bastante difundido e muito utilizado como souvenir. Mas a origem desse boneco chega a ser um pouco mórbida: o nome (atualmente escrito com outros ideogramas) significa literalmente “crianças que foram apagadas”. Parece ser que originalmente era usado por famílias que tinham tido um aborto (natural ou induzido): as mães colocam um boneco desses em casa para representar a criança não-nascida e tentar assim reparar o erro (no caso dos abortos naturais, as mães pediam perdão por não terem conseguido criar o bebê de maneira adequada; e no caso dos abortos induzidos pediam perdão pelo ato do aborto em si).

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Um terceiro costume interessante é uma música infantil japonesa muito conhecida, chamada Shabon-dama ou Bolas de Sabão. Apesar de ser uma música infantil, dessas que se aprendem no Berçário, a letra é bastante profunda e diz mais ou menos o seguinte:

“A bolha de sabão voou, voou até o telhado. Voou até o telhado, mas explodiu e sumiu.

A bolha de sabão sumiu, sumiu sem voar. Desapareceu logo depois de nascer, explodiu e sumiu.

Oh vento, não sopres mais, deixe as bolhas de sabão voarem.”

Pessoalmente acho muito interessantes estes 3 costumes nascidos por causa da cultura do aborto. Acho interessantes porque mostram que pessoas de distintas culturas, visões de mundo e religiões concordam com a brutalidade desse ato. E mesmo nos casos em que a legislação o defenda, tanto as estatísticas como o comportamento das pessoas que cometeram o aborto mostram que nenhuma lei positiva pode abortar do coração humano essa lei mais profunda a favor da vida e essa sensibilidade a tudo o que é nobre e humano, inscritas no coração do homem.

Alberto Hikaru Shintani, formado em História do Japão pela Universidade de Kobe e Mestre em Estudos Internacionais pela Universidade de Kyoto, é correspondente internacional do Juventude Pela Vida.

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2 comentários sobre “A consciência pró-vida no Japão

  1. A legislação japonesa é “made in USA” ou “made in Japan by US citizens” porquê o Japão perdeu a guerra. É uma pílula amarga e que o Japão ainda precisa terminar de digerir. Falando em comprimidos, com mais anti-concepcionais, o Japão poderia e teria menos abortos.

    Quem não gosta do aborto, que simplesmente não o faça. Obrigar que outras pessoas sejam da mesma opinião, e, para isso utilizar o poder coercitivo do Estado por meio de proibições me parece um tanto quanto violento; e isso causa mortes.

    Milhares são as mulheres que morrem no Brasil por conta de abortos realizados em clínicas ilegais, sem condições sanitárias. Ao trazer o aborto para a legalidade diminuem potencialmente o número de fetos e mulheres mortas.

    Além disso, aquilo que se passa dentro do corpo de uma mulher é assunto privativo dela.

    Se ela quiser ou não levar uma gravidez a termo depende unicamente dela e esse poder deve ser respeitado. Em países mais desenvolvidos (Suécia, Dinamarca, Finlândia, entre outros) felizmente é assim.

    • Caro Sven,

      Agradecemos o seu comentário e ficamos muito contentes que você, apesar de não compartilhar com nossos ideais, esteja aberto ao diálogo. As suas indagações, na verdade, não passam de clichês repetidos constantemente por aqueles que defendem o aborto, mas de fato não sabem a real dimensão de tal mal e as causas que fizeram tal debate surgir na segunda metade do século XX até agora. Ainda assim, não podemos julgá-lo, pois confiamos que esteja propondo um debate com boa-fé. Logo, recomendamos que leia o texto “Ignorância e Silêncio” (https://juventudeprovida.wordpress.com/2014/03/15/aborto-ignorancia-e-silencio/) publicado recentemente neste blog. Nele há respostas claras e sucintas para as suas dúvidas acerca do aborto. Logo após, se não forem os argumentos suficientes para você, responderemos qualquer outras questões, e esperamos que elas sejam de um nível mais elevado.

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